Escrever sobre a história do Rock em Pernambuco não é tarefa fácil. A principal dificuldade à espera do pesquisador reside na escassez das fontes de consulta: teses, livros, documentários, programas radiofônicos ou depoimentos gravados são tão raros quanto um bom disco de axé. Para piorar, o próprio objeto de pesquisa parece teimosamente imune às definições fáceis. Paêbirú, o clássico psicodélico de Zé Ramalho e Lula Côrtes, ou Da Lama ao Caos, a arrebatadora estréia de Chico Science e Nação Zumbi, são álbuns de rock? Um Sim caloroso ou um Não irritado seriam questionados da mesma forma. Diante desses e de outros obstáculos, só nos resta pedir clemência ao leitor para as carências dessa modesta tentativa que esboçamos a partir de agora.
Durante os anos 80, o autor desse artigo e seus amigos tinham por hábito visitar um misto de banca de revistas e sebo localizado numa das esquinas da Rua do Imperador, no centro do Recife. Era ali que funcionava – funciona ainda? – a “Banca do Elvis”, erguida em homenagem ao cantor de Jailhouse Rock e Blue Sued Shoes. Assim como seu proprietário, Ivan Passos, muitos pernambucanos fizeram juras de amor eterno aos astros dos primórdios do rock and roll. Mas é apenas com o surgimento da versão brasileira da beatlemania, o “iê-iê-iê”, pouco depois do golpe de 1964, que as guitarras se instalam em definitivo no Brasil, em paralelo a um aumento exponencial do número de fãs.
O desembarque em Pernambuco transcorreu sob fogo cruzado. De um lado, os remanescentes do Movimento de Cultura Popular - uma rica experiência que mesclava educação, política e cultura sob um viés nacionalista de esquerda, dizimada pelos militares – consideravam os “cabeludos” pouco mais que um bando de alienados. De outro, os simpatizantes da Bossa Nova faziam pouco da (suposta) falta de sofisticação estética do iê-iê-iê. Para piorar as coisas, a gravadora Rozemblit, na época uma das mais importantes do país, tinha uma política de lançamentos conservadora. Ainda assim, se formou um circuito de bailes, alimentado por programas de TV e de rádio, que gerou um esboço de profissionalização para dezenas de artistas.
Entre os nomes mais importantes da versão pernambucana do iê-iê-iê, estão The Silver Jets, Os Tártaros (que trazia o escritor Raimundo Carrero como saxofonista), Os Bambinos, Os Lordes, Os Diamantes, Os Selvagens e cantores como Luís Carlos Clay, Luiz Jansen e Katia Cilene. Graças à surdez da Rozemblit, raros foram aqueles que gravaram em disco as composições próprias ou, o que era mais comum, as versões de sucessos das paradas britânica e americana. Na segunda metade dos anos 60, a Jovem Guarda – para citar o outro nome de batismo do movimento, inspirado no programa de TV homônimo de Roberto Carlos – começou a perder terreno para a MPB, revigorada pelos festivais, e o Tropicalismo de Caetano Veloso e Gilberto Gil. Parte de seus militantes preferiu não arriscar mudanças radicais e construiu um nicho específico, voltado para as camadas populares, depois batizado como Brega. Outros não resistiram aos encantos da contracultura, integrando-se aos desdobramentos tropicalistas. Reginaldo Rossi (vocalista do Silver Jets) tomou o primeiro caminho. Almir de Oliveira e Ivson Wanderley (membros dos Selvagens, futuros Ave Sangria) optaram pelo segundo.
O Tropicalismo foi o primeiro movimento cultural brasileiro a fazer uma leitura simpática da então ascendente cultura pop. As ações no front pernambucano se desenvolveram quase simultaneamente aos happenings deflagrados no eixo Rio-São Paulo. Por aqui, no entanto, as intervenções tropicalistas ficaram mais restritas à poesia e às artes plásticas. É com o “desbunde”da metade inicial da década de 70 que o rock pernambuco ganha a devida cara de bandido. Antes de listarmos suas bandas e acontecimentos primordiais, vale lembrar que nossa contracultura ganhou fôlego no mesmo momento em que o movimento Armorial era formatado por Ariano Suassuna e outros intelectuais. A relativamente tensa relação dessas visões de mundo opostas marcou o período – apesar das tentativas revisionistas que tentam transformar o autor de Auto da Compadecida numa unanimidade acima do bem e do mal.
Os integrantes do underground pernambucano seguiram os passos dos seus mentores britânicos e americanos, tratando de expandir as fronteiras do rock. Eles incorporaram novos instrumentos, usaram e abusaram dos recursos de estúdio e flertaram com outros estilos musicais, incluindo as sonoridades regionais nordestinas. Não esqueceram, também, dos combustíveis psicodélicos: vários discos e shows foram realizados com os músicos sob efeito de LSD e cogumelos variados. Para viabilizar as “viagens” estéticas, construíram um circuito alternativo de bares, festivais, fanzines, lojas de disco e selos. Essa cena – um termo mais tarde popularizado pelo Mangue Beat – agrupou nomes como Alceu Valença, Ave Sangria, Lula Côrtes, Robertinho do Recife, Zé da Flauta, Ivinho, Phetus, Flaviola e O Bando do Sol e Aratanha Azul.
Dessa vez, a Rozemblit não ignorou os esforços dos nossos roqueiros. Mas a lendária gravadora pernambucana já estava às portas da falência, nocauteada pela internacionalização do mercado brasileiro de discos e pelos efeitos dramáticos de uma série de enchentes. Para fugir do gueto da contracultura, só restava uma alternativa: cair na estrada rumo ao sudeste. A debandada desarticulou nossa contracultura. A esse fator, digamos, “econômico”, somaram-se os prejuízos causados pelo excesso de drogas e bebidas e uma incapacidade de sentir a mudança do “espírito da época”. No início dos anos 80, encontramos um cenário onde a complacência caminha de mãos dadas com a falta de relevância.
Começa um período sombrio que durou até o Mangue Beat. Recife passou batido pela explosão do rock nacional. Não tivemos nada que se aproximasse minimamente da efervescêcia de São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília. As raras bandas que chegaram a gravar só contribuiram para agravar nosso desalento, como é o caso de Das Trevas e a Banda Vermelha, Academia do Medo e Tempo Nublado. Os metaleiros, claro, continuaram a chacoalhar as cabeleiras, como fazem sem interrupção desde o Black Sabbath saiu das catacumbas. Mas o único sinal de vigor do período foi a cena punk/hardcore, esboçada no início dos oitenta e consolidada na sua segunda metade. É daí que vieram Mundo Livre, Câmbio Negro HC e várias bandas do Alto José do Pinho.
De certa forma, o Mangue Beat é o nosso punk: um divisor de águas que deflagrou um período de intensa agitação musical. Seu caráter multicultural, no entanto, torna complicado, como apontamos no início do texto, determinar se tal ou qual grupo merece ser rotulado como “rock”. O que parece inegável é a importância dos acordes abrigados nessa palavra mágica na arquitetura sônica de incontáveis grupos do período – incluindo Chico Science e Nação Zumbi e Mundo Livre. Não há dúvida, também, que as estratégias do próprio punk serviram de inspiração para os chamados “caranguejos com cérebros” deflagrarem seu movimento. Uma lista com os grupos explicitamente mais rock da década de 90 e do início do milênio deve conter nomes como Devotos, Matalanamão, Paulo Francis vai pro Céu, Jorge Cabeleira, Sheik Tosado, Má Companhia, Os Cachorros, Hanagorik, Mombojó, Mellotrons, Vamoz!, Volver e China.
Parte dos grupos e artistas citados acima já pertence ao que podemos chamar de “pós-mangue”. É o sinal de que o Rock se mantém como uma presença importante na vida cultural de Pernambuco – mesmo se a internet, o MP3 e que tais tenham alterado radicalmente a maneira de produzir e distribuir os artefatos sonoros. Tamanha durabilidade é a prova irrefutável de que essse é um caso de paixão roxa...
Rock in Pernambuco
By Renato L
Writing about the Rock 'n' Roll history in Pernambuco is not an easy task. The main problem waiting for the researcher is the lack of resources: thesis, books, documentaries, radio shows or recorded quotes are as rare as a good axé (a common cadence from Bahia) record. To make things worse, the object of such research seems to be stubbornly immune to easy definitions. Are Paêbirú, the psychedelic Zé Ramalho and Lula Côrtes' classic or Da Lama ao Caos, the overpowering debut of Chico Science and Nação Zumbi, Rock albums? A warming Yes or an irritated No would be likewise questioned. Before all those – and others - obstacles, a writer can just ask for his readers mercy towards the gaps in the modest attempt of the sketching now presented.
During the 80's, this article’s author and his friends had the habit of visiting a small second hand bookstore that offered newspapers and magazines, both used and new, at the corner of Imperador Street, in Downtown Recife. There used to be – does it still? – a certain “Elvis' shop”, a tribute to the interpreter of Jailhouse Rock and Blue Sued Shoes. As its owner, Ivan Passos, a bunch of citizens of Pernambuco made promises of eternal love to ancient Rock stars. But it was only with the creation of the “iê-iê-iê” (the Brazilian version of The Beatles fever), that - short after the 1964 military takeover -, electric guitars started to definitively rule in Brazil, though. Let's add, in parallel, with a huge increasing of the fans legions.
The Rock disembarked in Pernambuco under cross fire. On one side, there were the last standings of the Movimento de Cultura Popular – a rich experience that put together education, politics, and culture, under a left nationalist point of view, crashed down by militarism – that considered the hairy rockers a little more than a bunch of aliens. On the other, the Bossa Nova friends thought little of it since it didn't show the same allegedly “iê-iê-iê” sophistication. The fact that Rozemblit, one of the most important record labels of the country at the time, and its conservative launching policy did not helped at all. Yet, a circuit of balls, fed by TV and radio shows, created a training sketch for dozen of artists.
Among the most important names of Pernambuco version of “iê-iê-iê” are The Silver Jets, Os Tártaros (featuring the writer Raimundo Carrero as a sax player), Os Bambinos, Os Lordes, Os Diamantes, Os Selvagens and singers such as Luís Carlos Clay, Luiz Jansen and Katia Cilene. Thank to the deafness of Rozemblit, few of them got to record their own compositions or, what was more ordinary, versions of hits from the US or British parade. In the middle 60's, the Jovem Guarda – quoting another name of that movement, inspired by the homonym Roberto Carlos' TV show – started to lose ground to the MPB, freshened up by festivals, and the Caetano Veloso and Gilberto Gil’s Tropicalismo. Part of its followers preferred not to risk a radical changing and created a specific cluster, aiming the most popular parcel of the population, afterwards called Brega. Those who did not resist the contra-culture charms, joined news displays of the Tropicalismo. Reginaldo Rossi (lead singer for Silver Jets) chose the first path. Almir de Oliveira and Ivson Wanderley (both members of the Selvagens and soon- to-be Ave Sangria) took the second.
The Tropicalismo was the first Brazilian cultural movement to make a friendly reading of the then raising pop culture. The action in the Pernambuco front started almost simultaneously with the ones going on Rio de Janeiro and São Paulo. Around here, however, the tropicalistas' interventions were more refrained to poetry and art. It was only with the craziness experienced in the early 70's that the Rock made in Pernambuco got a well deserved outlaw daring. Before listing the primordial bands and happenings, it is important not to forget that while the contra-culture was taking a new breath, the Armorial movement was being shaped by Ariano Suassauna and other local intellectuals. The relatively tense relationship between those two opposite visions of the world framed that era – despite the attempts of revisionists of that time aim to transform the Auto da Compadecida author as unanimity beyond good and evil.
Pernambuco underground members followed their British and American mentors’ steps and took care of expanding the Rock frontiers. They incorporated new musical instruments, used and abused of studio recording possibilities and flirted with other musical styles, including the Brazilian northeast sonorities. Let's not forget the psychedelic fuels that kept albums and concerts rolling under the effects of LSD and a variety of mushrooms. To make those esthetics’ trips possible, an alternative circuit of bars, festivals, magazines, music stores and labels was created. This scenario – word that would be popularized later by the Mangue Beat – put together names such as Alceu Valença, Ave Sangria, Lula Côrtes, Robertinho do Recife, Zé da Flauta, Ivinho, Phetus, Flaviola, O Bando do Sol and Aratanha Azul.
This time, the Rozemblit did not ignore the efforts of our rock stars. But the legendary record label from Pernambuco was already at the door step of bankruptcy, knocked down by the Brazilian music market globalization and by dramatical effects of a bunch of floods. In order to escape from the contra-culture ghetto, there was only a way out: hit the road towards the Southeast. The flee dismantled our contra-culture. In addition to this, let's say, economical reason, other losses were added: the drugs and alcohol excess plus the inability to feel a change in the spirit of the time. The early 80's were welcomed in a scenario were the complacency went hand in hand with the irrelevant.
A dark era, that lasted until Mangue Beat, began. Recife simply passed up the explosion of the Brazilian Rock. We didn't have anything that even minimally compare to the effervescence of São Paulo, Rio de Janeiro and Brasília. The few bands that got to record something only contributed to make us even more disheartening : as Das Trevas and a Banda Vermelha, Academia do Medo and Tempo Nublado. The Heavy Metal followers, of course, did not stop the head banging, something they keep doing, non stop, since Black Sabbath got out the grave. But the only signal of strength in this era was felt in the punk/hardcore scenario, frail in the beginning of the 80's and stronger in its last years. From there, came Mundo Livre, Câmbio Negro HC e and other Alto José do Pinho bands.
In a certain way, the Mangue Beat is our punk movement: a point of no return that got a time of intense musical agitation started. Its multicultural character, however, makes it complicate, as we said in the beginning of this article, to determine if this or that band deserves to be labeled as rock. What seems to be difficult to deny though is the importance of the chords under this magical word in the sonic architecture of a great number of bands in that time – including Chico Science and Nação Zumbi and Mundo Livre. There is also no doubt that the strategies of the punk movement itself inspired the so called “caranguejos com cérebros” - something like crabs with brains – in the start up of their movement. A top list with genuine rock bands from the 90's and from the beginning of the millennium must contain names such as Devotos, Matalanamão, Paulo Francis vai pro Céu, Jorge Cabeleira, Sheik Tosado, Má Companhia, Os Cachorros, Hanagorik, Mombojó, Mellotrons, Vamoz!, Volver and China.
Most of the bands and artists listed above are already in, what we could call, after-mangue era. It is a sign that Rock and Roll remains as an important entity in the cultural life of Pernambuco – even though the internet and the MP3 – which changed radically the way of producing and delivering sound artifacts. Such longevity is the incontestable proof that it is indeed a case of mad love...
Renato L - Journalist and music critic.
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