Crítica cultural no jornalismo impresso: aspectos de uma guerra de bastidores

Adriana Dória Matos


A contenda vem de longe e não se restringe ao debate público, à rixa entre jornalistas e críticos, mas abarca os próprios jornalistas, categoria mais heterogênea e arisca do que supõem os que dela são alheios.

O assunto melindroso é a crítica cultural, quer dizer, a apreciação, via textos opinativos, de obras e produtos artísticos em circulação, pertencentes aos campos da literatura, cinema, teatro, dança, artes plásticas e visuais, música, arquitetura e, mais recentemente, da moda, design, gastronomia, TV e outros fenômenos da cultura de massa.

Se há um consenso entre os vários agentes envolvidos na questão é o da má qualidade da dita crítica cultural. Não haveria relevância e pertinência nos julgamentos feitos pelos jornalistas que atuam hoje no jornalismo cultural impresso, fato não restrito ao cenário pernambucano, mas um fenômeno nacional. Se a crítica não tem qualidade, vale questionar os porquês.

Um primeiro aspecto relevante seria considerar a distinção que fazem alguns teóricos entre crítica e resenha. De acordo com essa separação, a crítica teria um caráter mais perene e fundamentado, interessada que estaria na valoração da obra artística, independente do seu apelo factual e de mercado. Uma obra observada sob estas condições teria como parâmetro as suas qualidades intrínsecas (forma e conteúdo), em detrimento das extrínsecas (como a pressão mercadológica, a supervalorização da figura do autor e o contexto social em que se insere). Os críticos seriam, então, aqueles indivíduos tecnicamente preparados, experientes, intelectualizados, formados e especializados nas suas áreas de atuação, desinteressados de aspectos que não a própria obra e sua análise.

Por oposição, caberia à resenha um papel “menor”, pois, não estando o resenhista tão preparado tecnicamente quanto o crítico profissional para julgamentos embasados e ocupando um outro espaço no âmbito da crítica (as efêmeras páginas de jornal), seu trabalho teria o perfil de apreciação ligeira, ligada à orientação para o consumo de produtos artísticos atrelados às demandas de mercado. O resenhista, portanto, estaria submetido à imposição de uma agenda de lançamentos e promoções que não privilegia a obra artística em seus valores perenes, mas sob seu impacto comercial. Assim, o resenhista teria o papel de destacar o novo livro de tal editora, o show do fim de semana, o filme que entra em cartaz nos multiplexes, o prato exclusivo criado pelo chef renomado, a abertura de uma nova exposição, a nova novela das oito.

Ainda que pertinente em vários aspectos, a separação entre crítica e resenha oculta a disputa que se estabeleceu entre jornalistas e críticos profissionais, em que o despreparo e a arrogância de grande parte dos jornalistas oferece argumentos para que os segundos detratem o trabalho crítico jornalístico, fortalecendo e legitimando a crítica profissional.

Ao mesmo tempo em que disputa credibilidade com a crítica profissional – numa corrida que hoje lhe é francamente desfavorável – o jornalista cultural precisa, muitas vezes, conquistar o reconhecimento entre os próprios pares. Em geral, o senso comum nas redações é de que o jornalista cultural é um privilegiado, que vive paparicado pela classe artística, pelos assessores de imprensa e divulgadores, que sabem quanta importância tem para formação de público ocupar o espaço editorial com apreciação crítica assinada por um jornalista credenciado (daí a interminável cadeia de assédios e pressões comerciais).

Nesse ambiente hostil e competitivo, cabe ao jornalista cultural dimensionar a importância da atividade que exerce em periódicos nos quais se reduz cada vez mais o espaço à crítica, buscando uma especialização continuada (mesmo que autodidata) e observando a ética profissional, para não sucumbir aos apelos do caminho mais fácil.

 *Adriana Dória Matos é jornalista, mestre em Teoria da Literatura, professora do curso de Jornalismo da Universidade Católica de Pernambuco e editora da Revista Continente

(Texto publicado na Revista Eita, da Fundação de Cultura Cidade do Recife)

 

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